É dada a largada no Jogo do Livro

Evento reúne, até sexta-feira, profissionais da educação básica, estudantes e pesquisadores de todo o Brasil


     

Acontece • Quinta-feira, 07 de Novembro de 2013, 12:06:00

Começou ontem o X Jogo do Livro Infantil e Juvenil, na Faculdade de Educação da UFMG. Realizado a cada dois anos, o evento completa sua maioridade em 2013, como lembrou a pesquisadora Maria Zélia Versiani, vice-diretora do Ceale: “O Jogo do Livro chega a seus 18 anos com a curiosidade da infância e a ousadia da juventude”.

Abrindo a noite, a escritora Conceição Evaristo emocionou o auditório com a interpretação de seu conto “Olhos d’água”. Em memória da audaciosa escritora negra Carolina Maria de Jesus, Conceição tematizou a importância da auto-representação das minorias sociais, que foram durante anos objeto do discurso alheio. “Tomar a palavra, ser sujeito de sua representação é entrar em um embate político, rompendo com o lugar de subordinação que foi tradicionalmente relegado às mulheres negras na literatura brasileira”, defendeu a escritora.

Na Conferência de Abertura, o pesquisador João Luis Ceccantini, do Departamento de Literatura da UNESP, buscou traçar um breve panorama da literatura infantil e juvenil brasileira, elegendo como fio condutor a insistente presença do pedagogismo. “Desde o século XIX, nos escritos do Barão de Macaúbas, o pedagogismo constitui uma matriz absoluta do que é considerado uma história infantil em nossa cultura”, afirmou o pesquisador. Esse viés pedagogizante, como explicou o Prof. João Luis, consiste em uma forma de utilitarismo, em que a história é escrita com a finalidade de ensinar alguma coisa às crianças. O resultado é a proliferação de histórias bastante endereçadas, fechadas e autoritárias: livros funcionais, mas vazios do ponto de vista do conteúdo. “Mesmo Monteiro Lobato, que foi um escritor de ruptura, absolutamente criativo e inovador, não pôde escapar completamente do tom pedagógico imperativo que atravessa a literatura para crianças no Brasil”.

Algumas tendências recentes no mercado editorial infantil apontam para o desenvolvimento de diferentes vertentes de pedagogismo. É o caso da psicologização dos livros infantis, por meio dos ditos livros comportamentais (que tratam de assuntos como a separação dos pais ou o medo do escuro, por exemplo) e da investida em literatura de autoajuda para crianças. João Luís alerta que esse tipo de produção pode descambar em livros com pouco (ou nenhum) valor literário. “Em que medida um livro desses vai deixar marcas na memória de uma criança que não vem necessariamente de um ambiente letrado?”, ele questionou. Isso não quer dizer, por exemplo, que esse pedagogismo não encontre formas mais criativas e inteligentes de se expressar, como é possível observar em diversos casos da produção literária contemporânea para crianças.

O Jogo do Livro acontece até sexta-feira, dia 8 de novembro. Você pode acompanhar neste link a transmissão ao vivo de todas as mesas e conferências. Acompanhe também a cobertura do evento pelo portal do Ceale e em nossa página no Facebook. 

Veja aqui as matérias de cobertura:

Livros para todos - Mesa sobre distribuição de livros em programas governamentais discutiu mercado, produção e receptividade

Som, imagem e palavra de mãos dadas - Integração entre diferentes linguagens marca a literatura contemporânea

Infância e juventude: qual literatura? - Consumo de livros entre crianças e jovens marca as discussões do X Jogo do Livro

Fim de Jogo - Literaturas afro-brasileiras e indígenas movimentaram o debate no último dia de Jogo do Livro