Escola sem partido?

Por Magda Becker Soares - professora emérita da Faculdade de Educação da UFMG


     

Geral ‚ÄĘ Quinta-feira, 11 de Agosto de 2016, 17:32:00

Discutir uma escola sem partido convoca evidenciar sua impossibilidade, e n√£o s√≥ porque √© mais uma tentativa de censura ‚Äď neste caso, felizmente, das mais ineficazes, porque pretende calar aqueles cuja fun√ß√£o, por atribui√ß√£o da Constitui√ß√£o e da Lei de Diretrizes e Bases da Educa√ß√£o, √© formar crian√ßas e jovens para a cidadania, de que s√£o princ√≠pios fundamentais a liberdade de express√£o e o desenvolvimento da criticidade; √© uma impossibilidade (uma ingenuidade?) porque se constr√≥i sobre pressupostos que n√£o se sutentam.

Escola sem partido: a express√£o remete inevitavelmente a partido pol√≠tico, embora se venha negando que seja esta a inten√ß√£o. Escola sem partido seria a escola incontaminada por partidos pol√≠ticos? Por algum dos 35 partidos que, surpreendentemente, o pa√≠s tem hoje? Acredita-se ¬†que cada um desses 35 partidos defende pr√≥prias e exclusivas convic√ß√Ķes sociais, pol√≠ticas, morais, religiosas ‚Äď defende uma ‚Äúideologia‚ÄĚ ‚Äď , e pretenda imp√ī-la √†s escolas? Imposs√≠vel.

Por outro lado, se sem partido se refere a posicionamentos pessoais de professores ‚Äď sociais, pol√≠ticos, morais, religiosos (ideol√≥gicos?) ‚Äď a fal√°cia est√° em supor que o ser humano √© capaz de se manter ‚Äúneutro‚ÄĚ em suas intera√ß√Ķes, sejam sociais, sejam, como pretende a escola sem partido, pedag√≥gicas. A proibi√ß√£o de ‚Äúdoutrina√ß√£o‚ÄĚ comete o equ√≠voco de julgar que as convic√ß√Ķes de um ser humano, neste caso o professor, s√≥ se manifestam pela palavra: sup√Ķe-se que, proibindo a palavra, fica proibida a ‚Äúdoutrina√ß√£o‚ÄĚ. Um equ√≠voco, porque n√£o s√£o s√≥ as palavras que expressam convic√ß√Ķes, mas o ser humano como um todo, que, ainda que tenha a palavra proibida, revela-se por seu modo de agir, de decidir, por seus comportamentos; pode-se at√© tentar calar o professor, mas n√£o se calam as mensagens que ele comunica por meios n√£o verbais, mesmo se tenta ‚Äúcensurar-se‚ÄĚ. Imposs√≠vel.

Al√©m disso, h√° na educa√ß√£o b√°sica em nosso pa√≠s, atualmente, mais de 2 milh√Ķes de professores. √Č poss√≠vel transformar tantas centenas de professores em rob√īs que se limitem a repetir conte√ļdos? como se tamb√©m conte√ļdos pudessem ser ‚Äúneutros‚ÄĚ: ¬†√© poss√≠vel falar de forma ‚Äúneutra‚ÄĚ da escravid√£o? do Holocausto? das guerras? do terrorismo? da mis√©ria do mundo? √© poss√≠vel levar a literatura aos alunos sem os textos, os livros, pois estes nunca s√£o ‚Äúneutros‚ÄĚ? Imposs√≠vel.

E mais: ser√£o os alunos, os quase 50 milh√Ķes de alunos das escolas brasileiras, os seres passivos que sup√Ķe a Escola sem Partido, a ‚Äúaudi√™ncia cativa‚ÄĚ que¬† se deixa facilmente influenciar pelos professores? O que dizer ent√£o da indisciplina, que t√£o frequentemente os professores enfrentam? o que dizer dos movimentos estudantis que invadem as ruas, que ocupam as escolas? ¬†Imposs√≠vel.

Escola sem partido? Só como ficção. Felizmente.


Leia outros artigos de professores vinculados à UFMG sobre o tema.