O que deve ser levado em conta na sistematização dos conhecimentos linguísticos?

Egon de Oliveira Rangel, da PUC-SP, e Luiz Francisco Dias, da UFMG, respondem a quest√£o


     

Letra A ‚ÄĘ Ter√ßa-feira, 22 de Dezembro de 2015, 15:17:00

Egon de Oliveira Rangel ‚ÄĒ professor e pesquisador da Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica de S√£o Paulo (PUC-SP)

Desde a d√©cada de 1980, o eixo do ensino encarregado dos conte√ļdos conceituais perdeu o lugar privilegiado que ocupava na educa√ß√£o b√°sica. Lugar t√£o privilegiado que ensinar portugu√™s era, basicamente, ensinar gram√°tica e vocabul√°rio.

No entanto, o atual compromisso com as práticas de linguagem não aboliu os conhecimentos linguísticos: para fazer progredir o nível de proficiência em leitura, por exemplo, pode ser necessário chamar a atenção para o uso que um autor faz dos substantivos. Mas... como abordar os substantivos, numa aula de leitura? E o que fazer com os novos conhecimentos, com o gênero, tipo de texto, coesão, coerência, variação linguística etc.?

Evidentemente, ningu√©m quer andar para tr√°s, voltando √† velha aula de gram√°tica. Ao mesmo tempo, a progress√£o da an√°lise e da reflex√£o sobre a l√≠ngua e a linguagem ‚ÄĒ indispens√°veis √† aprendizagem da leitura, da produ√ß√£o de textos e da oralidade mais formal ‚ÄĒ cedo ou tarde demandam que no√ß√Ķes e conceitos sejam utilizados. √Č nesse momento que o professor deve ‚Äúparar para pensar‚ÄĚ: que conhecimentos indispens√°veis ser√° preciso explicitar? E como economizar ao m√°ximo na metalinguagem? Afinal, conceder prioridade √† terminologia pode p√īr a perder todo o esfor√ßo de levar o aluno a viver experi√™ncias significativas com a l√≠ngua e a linguagem. Por outro lado, acertar a dose ajuda a consolidar conquistas.

Então... duas no cravo (das práticas), uma na ferradura (dos conhecimentos linguísticos). Não se trata de uma fórmula, mas de uma sugestão primeira.Para darmos ao conceito um lugar funcional no ensino: que ele seja tratado como uma ferramenta para a reflexão sobre o que vivenciamos como usuários da língua, e não como um conhecimento estéril.

Será preciso, no entanto, planejar e programar esse ensino: quando for necessário introduzir um conceito ou noção, que isso se faça porque o trabalho com o texto pediu. Mas que se abra espaço na sala de aula, então, para sistematizar esses conhecimentos em sua própria lógica conceitual. Assim, as práticas poderão se beneficiar dos conceitos.

 

Luiz Francisco Dias ‚Äď professor e pesquisador da Faculdade de Letras da UFMG

A sistematização dos conhecimentos linguísticos se sustenta na distinção da classe das palavras e na relação que as palavras mantêm umas com as outras.

Para exemplificar essa afirmação, vejamos duas frases do português brasileiro:

 

(1)   O animal vagaroso saiu do esconderijo.

(2)   O animal saiu vagarosamente do esconderijo.

 

Na primeira frase, a palavra ‚Äėvagaroso‚Äô est√° associada com ‚Äėanimal‚Äô, fornecendo uma informa√ß√£o mais espec√≠fica sobre o animal que saiu do esconderijo. Com isso, talvez o autor da frase esteja se referindo a uma tartaruga, por exemplo. A palavra ‚Äėanimal‚Äô pertence √† classe dos substantivos e ‚Äúvagaroso‚ÄĚ pertence √† classe dos adjetivos.

Na segunda frase, a palavra ‚Äėvagaroso‚Äô recebeu uma termina√ß√£o, que a gram√°tica chama de sufixo (-mente), resultando numa nova palavra: ‚Äėvagarosamente‚Äô. Quando um adjetivo se conecta com esse sufixo, a nova palavra pertence √† classe dos adv√©rbios. E nessa frase ele est√° associado com ‚Äėsaiu‚Äô, que √© uma forma do verbo ‚Äėsair‚Äô. Nesse caso, n√£o estamos dizendo que se trata de um animal lento, como vimos na primeira frase. Aqui, pode ser um coelho, por exemplo, considerado um animal r√°pido. Estamos nos referindo ao modo como esse animal se moveu ao sair do esconderijo.

Dessa maneira, pudemos observar que a sistematiza√ß√£o dos conhecimentos lingu√≠sticos leva em conta a forma e o sentido. Observamos a forma, por exemplo, quando percebemos que um sufixo, como -mente, s√≥ atua na l√≠ngua conectado a uma palavra. Quando temos o resultado dessa conex√£o, ‚Äėvagaroso‚Äô torna-se ‚Äėvagarosamente‚Äô. Observamos, pois, que o sentido muda, uma vez que ‚Äėvagarosamente‚Äô √© o modo como o animal se comporta ao se mover, e n√£o como ele √© (‚Äėvagaroso‚Äô).

Assim, forma e sentido funcionam intimamente unidos na sistematização linguística. Em sala de aula, o professor deve levar o aluno a observar que o conhecimento das palavras e da relação entre elas para formar uma frase nasce da observação das semelhanças e diferenças das formas e dos sentidos correspondentes.