‚ÄúO sujeito aprende a ser leitor‚ÄĚ

Com a mesa ‚ÄúTrajet√≥rias, espa√ßos e experi√™ncias liter√°rias‚ÄĚ, chega ao fim a 11¬™ edi√ß√£o do Jogo do Livro


     

Acontece ‚ÄĘ Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2015, 13:18:00

Experi√™ncias liter√°rias que revelam valores, escolhas e repert√≥rios que se constroem em torno do letramento liter√°rio:¬† esse foi o tema abordado na quinta e √ļltima mesa do XI Jogo do Livro e I Semin√°rio Latino-americano: Media√ß√Ķes de Leitura Liter√°ria. O debate circundou o tema pelo vi√©s de trajet√≥rias e experi√™ncias socializadoras em bibliotecas e outros espa√ßos de leitura, importantes para a cria√ß√£o e manuten√ß√£o de disposi√ß√Ķes para a leitura de livros, da inf√Ęncia √† idade adulta. Para discutir o assunto, a professora da Faculdade de Educa√ß√£o ‚Äď FaE da UFMG, Gra√ßa Paulino, abriu a discuss√£o falando sobre o mercado de livros juvenis. Intitulada ‚ÄúLiteratura Juvenil: afinal, do que estamos falando?‚ÄĚ, a palestra abordou quais livros, autores e os desafios que esse mercado enfrenta atualmente. ‚ÄúEsse √© um assunto pol√™mico, e n√≥s n√£o podemos fugir dele. Antes havia outro jovem e outra produ√ß√£o liter√°ria. Hoje o mercado oferece uma variedade de formatos, tamanhos e autores‚ÄĚ, comentou Gra√ßa, que complementou: ‚Äúo jovem cresceu em v√°rios aspectos e, por isso, h√° uma dificuldade em definir quem √© o jovem de hoje e qual livro ele ir√° ler. Ent√£o a grande quest√£o √©: que tipo de estrutura narrativa precisa ser apresentada para entreter esse jovem atual?‚ÄĚ. Para exemplificar, Gra√ßa apresentou alguns exemplares publicados para essa faixa et√°ria e destacou ‚ÄúUm ano inesquec√≠vel‚ÄĚ, de Thalita Rebou√ßas, Paula Pimenta, Bruna Vieira e Babi Dewet. As autoras, que s√£o aclamadas pelo p√ļblico juvenil, tem entre os seus livros alguns best sellers. Ao falar sobre a publica√ß√£o, Gra√ßa Paulino finalizou: ‚Äúsugiro que as pessoas fa√ßam uma pesquisa estil√≠stica nos textos de Paula Pimenta, por exemplo, para entender o que atrai o jovem de hoje e o que justifica o seu enorme sucesso‚ÄĚ.

 

‚ÄúA gente cresce sem saber para onde‚ÄĚ


Uma biblioteca comunit√°ria que promove saraus, cursos e oficinas, encontros com autores e passeios de barco com conta√ß√£o de hist√≥rias. Essa incr√≠vel jun√ß√£o faz parte do projeto Barca dos Livros ‚Äď Porto de Leituras, em Florian√≥polis (SC).¬† Com um acervo de mais de 15 mil livros, a biblioteca promove atividades com a comunidade e incentiva a leitura na regi√£o. A coordenadora da biblioteca, a professora Silvana Gili, √© uma das porta-vozes desse projeto. Em sua palestra no Jogo do Livro, Silvana explicou como funcionam as atividades na biblioteca e como isso envolve a comunidade. ‚ÄúOs alunos, de escolas p√ļblicas e particulares, chegam √† biblioteca e j√° passam a explor√°-la. A princ√≠pio √© um momento ca√≥tico mas logo elas passam a se concentrar nos livros. E √© um momento livre. Elas t√™m livre acesso √† todos os exemplares dispon√≠veis, independente se √© um livro adulto, infantil, gibi, etc‚ÄĚ, conta. Para Silvana, a biblioteca, que recebe alunos de todas as faixa et√°rias, tem a inten√ß√£o de desmistificar o objeto livro. ‚ÄúA princ√≠pio, √© um espa√ßo que pode intimidar pelo n√ļmero de exemplares, mas a gente procura fazer um ambiente bem acolhedor para que todos se sintam lendo em casa. E esse momento de explorar e 'curiosear' √© importante para desenvolver o h√°bito da leitura nas crian√ßas‚ÄĚ. Ao final da visita, √© realizado um momento de ‚Äúconta√ß√£o‚ÄĚ de hist√≥rias. Al√©m da visita √† biblioteca, a Barca conta com uma a√ß√£o diferenciada: duas vezes ao m√™s, os alunos tem a oportunidade de realizar um passeio de barco pela Lagoa da Concei√ß√£o. L√°, eles encontram livros espalhados pelos bancos da embarca√ß√£o e, ao chegar no meio da lagoa, √© realizada a conta√ß√£o de uma hist√≥ria. Silvana ficou muito feliz ao falar desse momento: ‚Äúo clima festivo, o encantamento das crian√ßas explorando os livros e se sentindo em uma aventura. Tudo isso √© incr√≠vel‚ÄĚ.

 

"√Č importante validar a escolha da crian√ßa, principalmente se √© um momento de explora√ß√£o.‚ÄĚ


Finalizando o debate, o doutor em Educa√ß√£o pela FaE/UFMG Roberto Cezar de Souza Silva apresentou a hist√≥ria de Evando dos Santos, o homem livro. Um dos personagens pesquisados em sua tese de doutorado, intitulada ‚ÄúA Extraordin√°ria Trajet√≥ria de Forma√ß√£o de um Pedreiro Bibli√≥filo‚ÄĚ, o pedreiro Evando mudou-se de Sergipe para o Rio de Janeiro aos 12 anos. L√°, ele fundou a biblioteca comunit√°ria Tobias Barreto de Menezes, que come√ßou com 50 livros e hoje possui um acervo de mais de 40 mil publica√ß√Ķes. Evando, que se alfabetizou aos 18 anos, come√ßou guardando os livros em sua casa, onde ficavam empilhados e ocupavam todo o espa√ßo. Hoje, as publica√ß√Ķes ocupam um edif√≠cio de tr√™s andares com desenho arquitet√īnico doado por Oscar Niemeyer. Esta hist√≥ria incr√≠vel vinha sendo explorada pela m√≠dia apenas pelo √Ęngulo do espet√°culo, e foi o outro lado n√£o contado que Roberto buscou apresentar. ‚ÄúA m√≠dia exclui os sujeitos fundamentais para a forma√ß√£o de Evando. Ela ignora a import√Ęncia de cada agente e cada mediador na constru√ß√£o desse sujeito leitor‚ÄĚ, conta. Apesar de ter se alfabetizado apenas aos 18 anos, Evando j√° tinha contato com a literatura desde a inf√Ęncia no Sergipe, com os cord√©is lidos pelo pai, ou a B√≠blia que ganhou da prima e as hist√≥rias de cunho moral contadas pela professora. Roberto mostra que j√° havia um incentivo familiar no gosto pela leitura, e que, ‚Äúapesar das desvantagens sociais, √© percept√≠vel uma socializa√ß√£o de Evando com objetos de leitura desde pequeno. E esse h√°bito de ler √© intensificado quando ele √© valorizado como leitor pela sociedade e pela m√≠dia‚ÄĚ, finaliza Roberto.

http://www.ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/files/uploads/xi%20jogo/DSC_9747.jpg

‚ÄúO gosto pela leitura n√£o √© inato. O sujeito aprende a ser leitor‚ÄĚ