No 1º Encontro do CNCA, Isabel Frade defendeu a integração curricular e a formação docente como pilares para assegurar que o ingresso na cultura escrita ocorra de forma efetiva e sem rupturas pedagógicas
A pesquisadora do Centro de alfabetização, leitura e escrita Magda Soares (Ceale) e professora titular da Faculdade de Educação da UFMG, Isabel Cristina Frade, foi uma das convidadas do 1º Encontro Nacional do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA) para Municípios de Médio e Grande Porte.
O evento, realizado em Brasília entre os dias 13 e 15 de abril de 2026, reuniu gestores e especialistas para dialogar sobre estratégias de garantia do direito à alfabetização.

A participação da docente ocorreu na última terça-feira, 14 de abril, no Painel 3, intitulado “A garantia do direito à leitura e à escrita como práticas sociais na educação infantil e na alfabetização”. Durante sua exposição, a professora abordou a necessidade de superar a visão de “campo minado” que muitas vezes permeia a relação entre a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental.
Cultura escrita e o papel da escola
Em sua fala, Isabel Frade defendeu que a alfabetização deve ser vista como uma experiência proveitosa em todas as etapas educacionais. Ela ressaltou que a inclusão da Educação Infantil no Compromisso Nacional não é inédita, mas fundamental para garantir ganhos no repertório de participação das crianças nas culturas do escrito. Segundo a professora:
“Muitas vezes se fala ‘vamos inserir a criança na cultura escrita’. Isso é um contrassenso porque ela já está inserida na cultura escrita. A questão é: até que ponto a gente conhece essas experiências?”
Para Frade, a escola tem o papel político de ampliar o acesso a artefatos culturais e combater a exclusão social, ao garantir que ler e escrever façam sentido para a criança. Ela utilizou as bases teóricas de Magda Soares para explicar que cultura escrita, letramento e alfabetização são camadas que se interconectam, mas possuem objetos de conhecimento específicos que o professor deve saber mediar.
Continuidade educativa e prática pedagógica
A especialista enfatizou que a transição entre as etapas deve ser um processo contínuo que respeite a singularidade das infâncias. Ela alertou para os riscos de uma alfabetização centrada apenas na decifração mecânica, ao propor que a compreensão seja trabalhada desde cedo através da oralidade e do contato com a literatura.
“Ler é também falar sobre os textos, é também revisitar os textos, é escrever sobre os textos, é escrever para alguém, ler a partir dos textos lidos… tudo isso desde a educação infantil é um trabalho com a compreensão”, coloca.
Ao encerrar sua apresentação, a professora Isabel lançou provocações estruturantes voltadas à gestão de redes de ensino de médio e grande porte. Ela pontuou que o sucesso da alfabetização em larga escala depende da implementação de propostas curriculares que assegurem um contínuo de aprendizagens. Nesse formato, os campos de experiência da Educação Infantil cruzam-se de forma orgânica com os anos iniciais do Ensino Fundamental. Essa continuidade deve ter o suporte de políticas de formação integrada. Tais iniciativas permitem que professores das duas etapas estabeleçam diálogos e construam modelos de ação compartilhados. Além disso, Isabel defendeu uma curadoria rigorosa para ambientes físicos enriquecidos por bibliotecas, cantinhos de leitura e murais. Esses locais devem oferecer farta diversidade de materiais impressos e modelos de uso da escrita. Por fim, Frade enfatizou a importância vital da escuta docente. Ela incentivou os gestores para que valorizem o saber prático do professor e superem preconceitos sobre as estratégias pedagógicas utilizadas em sala de aula. Assim, as políticas públicas reconhecem e fortalecem o protagonismo dos educadores na mediação da cultura escrita.
Assista à transmissão na íntegra: