Por que eles voltaram a estudar

Estudantes e ex-estudantes da Educação de Jovens e Adultos da UFMG contaram suas histórias e refletiram sobre seus percursos escolares, em evento na FaE

Por ter parado de estudar muito nova, Esther relata ter passado boa parte da vida “sem autoestima”. Quando retomou os estudos, viu que a Educação de Jovens e Adultos (EJA) “é envolvimento, trabalho em grupo, conhecer o outro”. Da antiga personalidade acanhada, logo nasceu um espírito de liderança: foi representante de turma por três anos. “Graças a Deus estou falando um pouquinho mais. Antes eu só ouvia.” Da timidez ainda resta algo (porque isso é um pouco nato mesmo, ela acredita). Mas, em matéria de autoestima, a guinada foi completa: “No dia em que fui no Centro Pedagógico buscar meu diploma, não parava de rir. Me senti cadastrada na sociedade!”, e riu de novo ao contar.

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A fala extrovertida de Esther Aline Salomão das Virgens abriu a mesa “As histórias de educandos e educandas da EJA na UFMG – Relatos de experiência”, na terça-feira (17), na Faculdade de Educação da UFMG.


Se escuta alguém dizer que é tarde para voltar a estudar, Dona Ivone apresenta logo suas credenciais. “Nunca é tarde! Eu entrei tinha mais de 80 anos. Estou aqui, aos 90, ainda querendo…” É interrompida pelo auditório em aplausos. Só retoma quase um minuto depois: “…querendo aconselhá-los a não desistir!” Tinha uma coisa que lhe tirava o sono quando estava no Projeto de Ensino Fundamental de Jovens e Adultos (Proef): “Quando um colega resolvia não mais estudar, eu perdia a noite pensando num conselho.” Dona Ivone sempre quis retomar os estudos, mas teve vários impedimentos ao longo da vida. Quando a filha falou do Proef, perguntando: “Mãe, a senhora sempre teve vontade de estudar, quer voltar a estudar?”, sua resposta foi direta: “Ontem!” Algumas memórias do pouco tempo na escola, na infância distante, ainda são fortes. Dona Ivone se lembra até hoje do texto de um monólogo que a professora lhe deu para ler quando tinha 8 anos de idade, de título “Queixas de uma colegial preguiçosa”. Sobre essa característica da personagem, Dona Ivone deixa clara sua ressalva: não tem nada a ver com ela!

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Após Ivone da Silva Lage encerrar sua fala, recitando o referido monólogo inteiro, quase todo de cor, o auditório se levantou para aplaudi-la mais uma vez.


José Geraldo anuncia que, no discurso que irá ler, “o que estiver certo foi o Proef que me ensinou, o que estiver errado fui eu que fiz”. É a primeira de várias brincadeiras improvisadas que pontuam a leitura do texto mais sério, escrito pelo ex-militar para falar sobre sua experiência de um ano e meio como aluno de EJA. Um dos assuntos sérios da fala envolve exatamente esta profissão em que se aposentou: “hoje eu sei o que foi a ditadura, antes só via o lado bom”. Levou tempo para que José Geraldo visse vantagem em voltar a estudar. Mas, desde que voltou, aproveita cada instante: “O Proef vai me levar muito mais longe do que eu pensava em chegar. Sonhava, mas não pensava.” Um dos grandes sonhos foi realizado rapidamente: no fim de seu primeiro ano na EJA, ele já publicou um livro de poesias, e anuncia que já tem escritos 16 capítulos de uma próxima publicação.

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José Geraldo da Silva lançou “O Sentido da Vida” no fim do ano passado, livro de poesias que vendeu e autografou na saída de sua participação no Seminário 30 anos da EJA na UFMG.


Quando criança, Maria de Fátima ouvia do pai que “mulher não precisava de estudar”. E assim deixou a escola aos 8 anos, para trabalhar. Depois de muito tempo, já os filhos crescidos, aquele mesmo discurso inibidor do pai se atualizava em outras vozes. Até mesmo em casa, ainda ouvia: “Está fazendo o quê na escola? Vai pra igreja, vai frequentar um grupo de senhoras…” Para que, então, voltar a estudar? Maria de Fátima salpicou algumas respostas, que ela vem descobrindo no decorrer de sua experiência como estudante de EJA: “melhora nossa autoestima”, “aprende cada dia um pouquinho”, em “horas agradáveis na sala de aula”, passadas com um grupo que é como uma família, presente “quando precisa de um abraço”.

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Em 2013, Maria de Fátima Marinho de Oliveira concluiu o Ensino Fundamental e atualmente cursa o Projeto de Ensino Médio de Jovens e Adultos da UFMG.


Oseias conheceu a Faculdade de Educação da UFMG com 11 anos. Aquele “menino magrinho” já tinha um talento escondido: “eu mesmo não sabia, mas estava lá”. Oseias lavava carros na FaE, onde a convivência com professores era estimulante para que aquele talento começasse a se revelar. Ouvir professores conversarem em inglês, tomar com eles um cafézinho: tudo era inspirador. Até que decidiu concluir o Ensino Médio na EJA da UFMG e logo foi cursar Letras, graduação que emendou com duas pós-graduações. “Hoje consigo fazer aquilo que estava oculto, estava guardado.” Atualmente, Oseias é professor da rede municipal de BH.

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Oseias Salomão das Virgens lavou carros por 26 anos na FaE, ambiente que o motivou a estudar.


Os cinco relatos acima foram parte do III Seminário Universidade e Educação de Jovens e Adultos – 30 anos da EJA na UFMG, que ocorre esta semana na Faculdade de Educação da UFMG.

 

Texto: Vicente Cardoso Júnior / Ceale

Fotos: Luciana Gontijo / Proef-2

 

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