Graça Paulino, em suas próprias palavras | parte 2


     

Letra A ‚ÄĘ Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019, 17:02:00

Da cozinha à mesa posta

Por Graça Paulino*
 
 
Minha vida no mundo da escrita
 
Cada um de n√≥s se inscreve no universo da l√≠ngua escrita de um modo bem particular, que depende de uma hist√≥ria espec√≠fica de vida, com suas experi√™ncias, medos, projetos, lembran√ßas, paix√Ķes, e tudo o mais.¬†
 
Essa pessoalidade pode agravar, complementar ou questionar os condicionamentos que a sociedade letrada nos imp√Ķe, pois os dois n√≠veis de exist√™ncia, o individual e o coletivo, interagem o tempo inteiro, em nosso cotidiano de leitores nessas cidades constru√≠das de jornais, revistas, livros, folhetos, cartazes, placas, cartas, bulas, receitas, r√≥tulos, an√ļncios. O fato √© que deixar de conviver nesse universo √© imposs√≠vel mesmo para os analfabetos, mas o jeito da conviv√™ncia apresenta diferen√ßas significativas de uma pessoa para outra. Por isso √© que resolvi contar aqui minha hist√≥ria: para ver o que a distingue e o que a confunde com tantas hist√≥rias de leitores desse povar√©u brasileiro.¬†
 
Import√Ęncia igual tem o que me aproxima de todos ‚ÄĒ nossa hist√≥ria coletiva de leitura ‚ÄĒ e o que me diferencia de todos ‚ÄĒ minha hist√≥ria pessoal de leitora. Todavia, costumo apontar a mim mesma como melhor exemplo das estranhezas que das experi√™ncias comuns. E me explico.¬†
 
Nasci numa fam√≠lia de camponeses e oper√°rios analfabetos, que migrou do interior de Minas para a capital, Belo Horizonte. Corria ent√£o o ano de 1949, fechando a primeira metade do s√©culo, com suas guerras e revolu√ß√Ķes de impacto mundial, das quais poucos matutos brasileiros tomaram conhecimento. Lembro que minha av√≥ elogiava o Get√ļlio, e minha tia falava de uma boneca alamoa que tinha vindo de muito longe. Na ro√ßa, s√≥ o r√°dio garantia algumas not√≠cias do mundo. Mas a luz el√©trica iluminava poucas casas, fazendo com que os casos contados fossem acontecidos por perto mesmo.¬†
 
Não vivi por muito tempo a lamparina, pois tinha um ano quando meu povo escolheu a Belo Horizonte progressista para morar. Mas, na cidade grande, viver sem saber ler era muito mais difícil. Por isso, quando entrei na escola, aos sete anos, carregava uma responsabilidade enorme, que era a de introduzir oficialmente meu grupo de parentesco no mundo letrado. Sentiam-se representados por mim, figurinha difícil e frágil para quem convergiam as expectativas de felicidade na leitura. E na escrita, é claro, porque não existe fronteira no mundo dos sonhos.
 
Na verdade, antes j√° havia aparecido entre n√≥s um ser excepcionalmente dotado dessas poderosas letra√ß√Ķes. Quando eu tinha quatro anos, minha m√£e me arranjou o padrasto ideal: al√©m de ser bonito e doce, al√©m de possuir um Buick 49, que dirigia por Belo Horizonte inteira, ganhando a vida de taxista, o Quim tinha estudado at√© o quarto ano de grupo. Sua letra era linda, e ainda gostava tamb√©m de desenhar. Lembro-me t√£o bem como se fosse hoje: uma vez pedi a ele que lesse para mim o que escrevera numa foto sua que minha m√£e guardava. E ele leu:¬†
 
Ouve estes versos que te dou. 
Eu os fiz hoje que sinto o coração contente. 
Enquanto o teu amor for meu somente, 
eu farei versos e serei feliz. 
 
Nunca me esqueci dessa quadra. Muitos e muitos anos depois descobri que os versos n√£o eram dele, mas de J. G. de Ara√ļjo Jorge. N√£o tem import√Ęncia a autoria real para mim. Ali√°s, mais ainda admirei o Joaquim Alves da Silva por ter-se apossado assim sem cerim√īnias do poema. Mas, e minha m√£e, que nem sabia ler? Como ser√° que recebeu esse presente? Decerto pediu que ele recitasse, e decerto isso fez com que seu amor aumentasse. O dele √© que durou pouco. Em 1957, JK presidente, com o convite de novas estradas, ele trocou o Buick por um caminh√£o e sumiu no mundo.¬†
 
Confesso que, quando cheguei à escola pela primeira vez, já sabia desenhar meu nome completo. Minha madrinha ensinara-me isso, a qual tinha trabalhado como professora de escola rural, onde deve ter sido essa a sua função. Eu me orgulhava muito do bordado a lápis, embora não fizesse sentido algum. Queria era saber ler e escrever de verdade, o que me ensinou dona Julieta, no primeiro ano do que na época se chamava curso primário. 
 
Minha m√£e foi quem se empenhou no meu sucesso no mundo da escrita de modo mais insistente: queria que eu tivesse todas as condi√ß√Ķes favor√°veis para participar desse mundo novo, no qual ela mesma nem assumia tentar entrar. Hoje, doutora em Letras, sinto como se fosse em boa parte de minha m√£e o t√≠tulo. No fim da vida, apesar de meus esfor√ßos alfabetizadores, ela apenas sabia ler soletrando bem devagar, entendendo muito pouco. Como poderia partilhar a condi√ß√£o privilegiada da filha doutora em Letras?¬†
 
Ora, fazia parte do projeto de vida dela. Por ela frequentei a escola, e gra√ßas a ela pude ler em paz Michel Zevaco. Sim, Michel Zevaco, embora fosse autor de capa e espada, adquiria a seriedade de um autor cient√≠fico, pois, ao me ver lendo, sem saber de que se tratava, minha m√£e sempre dizia: vamos deixar a Gra√ßa em paz. Est√° estudando. Precisa estudar. Gosta de estudar. N√£o nego que eu tivesse certo gosto, mas sem ela seria tanto? Na verdade, minha m√£e acabou inserindo-se no mundo da escrita de um modo transferido, projetivo, sonhador. Valeu. Sinto-me bem Paulo Set√ļbal: Minha m√£e, Deus lhe pague. Em Confiteor, o escritor conta que disse isso no seu discurso, ao entrar para a Academia Brasileira de Letras. A m√£e dele, se bem me lembro, estava velhinha e distante, no interior de S√£o Paulo, rezando pelo filho. Decerto Paulo Set√ļbal ter√° sido mais cat√≥lico, mais piegas e mais importante que eu na sua fala. Mas, se li sua autobiografia na adolesc√™ncia e at√© hoje me lembro dessa passagem, temos um ponto em comum: Minha m√£e, Deus lhe pague.¬†
 
Nem todas as mães que zelam pelos filhos letrados são analfabetas como foi a minha. Creio que nós, que sabemos ler, se quisermos, saberemos defender o direito de alfabetização verdadeira para todos. Numa sociedade letrada, o analfabeto vive uma carência e uma exclusão social que degradam o cotidiano de todos, tanto quanto qualquer outra miséria. O caso dos adultos analfabetos é de solução mais difícil que o das crianças, talvez até mais grave. Filhos doutores não bastam, de fato, se não tivermos pais leitores. 
 
Sei que meu caso é exceção. Possivelmente sirvo para mostrar que nossa organização social é aberta, democrática, simpática. Não é bem assim, quando a regra é a desigualdade e a injustiça. Hoje, mudar de classe graças à escola, sem lesar o próximo ou a pátria, está mais difícil do que nunca. Dispenso-nos do hiperbólico elogio da leitura pela leitura, porque sei que não basta devorar livros para melhorar como pessoa. Mas o direito de acesso ao mundo escrito é de todos. 
 
Minha m√£e, como outros milh√Ķes de brasileiros, teria participado mais diretamente das qualidades dos textos escritos, se n√£o tivesse internalizado essa ‚Äúfa√ßanha‚ÄĚ como algo acima de suas for√ßas. Assim pensava por sua hist√≥ria particular, ou assim foi levada a pensar por poderosos interesses econ√īmicos, dependentes da ignor√Ęncia alheia? Confesso que n√£o sei. Tudo se funde nesses epis√≥dios tr√°gicos, em que o indiv√≠duo √© ator e v√≠tima das ideologias. Repito que a pessoa, em sua vida, ora fortalece e complementa, ora questiona aquilo que lhe √© imposto de fora. √Äs vezes fica tudo misturado, este √© o problema.¬†
 
Conhe√ßo, por exemplo, gente que conseguiu um falso acesso ao mundo da escrita, e ficou satisfeita com isso. N√£o vejo valia em saber balbuciar, de modo ap√°tico, uma sequ√™ncia de palavras sem sentido de verdade. Infelizmente, no s√©culo XX, a situa√ß√£o de exclus√£o n√£o s√≥ permaneceu como cresceu, √†s vezes declarada, √†s vezes dilu√≠da pelos ‚Äúmobrais‚ÄĚ. H√° quem ache que o governo deva ignorar os adultos analfabetos, para investir apenas nas crian√ßas. Trata-se, talvez, de um trauma decorrente do fracasso do Mobral, com suas estat√≠sticas falsas e seus m√©todos mais mentirosos ainda. O fato √© que a escola p√ļblica brasileira deve estar aberta, de fato, para todos os cidad√£os que dela precisem, sejam estes crian√ßas ou adultos.
 
Tamb√©m h√° os que duvidam da ‚Äúserventia‚ÄĚ da l√≠ngua escrita para os cidad√£os mais pobres. V√£o for√ßar os miolos, para depois ficar reclamando da vida, do sal√°rio baixo, da hora extra sem ganho, das anota√ß√Ķes erradas, e at√© de falta do p√£o? Ora, fa√ßam-me o favor! Para bater bem a enxada, n√£o carece de letra, n√£o! Assim pensam os coron√©is que se acostumaram a explorar a m√£o de obra e o voto dos analfabetos, mantidos na condi√ß√£o de escravos, sem direito √† casa, comida, educa√ß√£o e atendimento m√©dico pelo seu trabalho.¬†
 
Ainda conhe√ßo, e alguns bem de perto, aqueles representantes de esquerdas radicais que julgam a leitura prejudicial do ponto de vista ‚Äú√©tico‚ÄĚ, porque se trataria de uma imposi√ß√£o cultural, capaz de levar as pessoas a um assujeitamento aos padr√Ķes dominantes, dos quais o cidad√£o estaria mais ‚Äúlivre‚ÄĚ sem saber ler. Parece pouco prov√°vel que essa ‚Äúliberdade‚ÄĚ dos analfabetos se afirme diante da condu√ß√£o de opini√£o p√ļblica levada a cabo pelo r√°dio e pela TV no pa√≠s. N√£o estamos mais, como no meio deste s√©culo, de lamparina na m√£o. Os matutos, assim como os favelados analfabetos, convivem diariamente com as mensagens que os aparelhos de r√°dio e televis√£o fazem chegar √† sala humilde de suas casas humildes. E o controle mais f√°cil √© esse dos analfabetos: livros e jornais s√£o muitos, canais e emissoras s√£o poucos.¬†

Continue lendo: 

Parte 3 - De pessoas a personagens

Parte 4 - Favores, presentes, troféus: livros na escola

Parte 1 - Graça Paulino, em suas próprias palavras