Alfabetização bilíngue para crianças surdas

O trabalho em sala de aula com alunos surdos vai muito além da presença de um intérprete de línguas de sinais


     

Letra A ‚ÄĘ Segunda-feira, 24 de Agosto de 2020, 16:16:00

 
Por Naide Sousa
 
Crian√ßas surdas que s√£o nascidas e criadas em fam√≠lias com pelo menos um respons√°vel tamb√©m surdo t√™m contato com a l√≠ngua de sinais desde o come√ßo de suas vidas. Esse contato permite que elas se desenvolvam e tenham um dom√≠nio da l√≠ngua de forma mais natural e f√°cil. ‚ÄúQuando uma crian√ßa surda recebe est√≠mulos visuais desde beb√™, a tend√™ncia √© repeti-los e iniciar os processos de comunica√ß√£o e aprendizado, semelhante ao que acontece com uma crian√ßa ouvinte‚ÄĚ, afirma Terezinha Rocha, professora do Departamento de M√©todos e T√©cnicas de Ensino da Faculdade de Educa√ß√£o da UFMG.
 
Na escola, a flu√™ncia na l√≠ngua de sinais, a Libras, no Brasil, reflete num processo mais f√°cil de alfabetiza√ß√£o da crian√ßa surda. Segundo Luciana Freitas, professora e orientadora educacional do Centro de Capacita√ß√£o de Profissionais da Educa√ß√£o e Atendimento √†s Pessoas com Surdez (CAS-BH/MG), ‚Äúgeralmente a gente v√™ nas diversas situa√ß√Ķes de aprendizagem que, para o aluno surdo que j√° tem a l√≠ngua 1 (Libras), a compreens√£o dele da l√≠ngua 2 (portugu√™s) acontece de uma forma mais favor√°vel do que daquele que n√£o tem nem uma, nem outra‚ÄĚ.
 
Fernanda Soares, professora e coordenadora do curso de Letras-Libras da UFRJ, que √© surda e atuou como instrutora na rede municipal de Belo Horizonte (MG), conta da experi√™ncia de seu filho, tamb√©m surdo: ‚ÄúComo ele j√° teve a experi√™ncia pr√©via de aquisi√ß√£o e desenvolvimento da linguagem, hoje em dia √© poss√≠vel que tenha para ele int√©rprete na sala de aula. Porque o int√©rprete sinaliza sabendo que ele j√° sabe Libras. E o meu filho tem desenvolvido bastante em rela√ß√£o √† leitura escrita da l√≠ngua portuguesa.‚ÄĚ
 
‚ÄúQuando a crian√ßa ainda n√£o interage por meio de uma l√≠ngua, o envolvimento nas brincadeiras, o aprendizado da rotina escolar, a compreens√£o de regras, a participa√ß√£o nos momentos liter√°rios e todas as outras atividades escolares acabam n√£o fazendo sentido para ela‚ÄĚ, explica Terezinha.
 
Mas nada disso p√Ķe-se como impeditivo para a alfabetiza√ß√£o de estudantes surdos que ainda n√£o t√™m dom√≠nio da Libras. Estes s√£o a maioria, j√° que um grande n√ļmero de crian√ßas surdas vem de fam√≠lias predominantemente ouvintes. E, em geral, os respons√°veis ouvintes ou desconhecem a l√≠ngua de sinais, ou s√£o resistentes ao seu ensino e uso, o que limita a crian√ßa surda √† comunica√ß√£o mais b√°sica, levando-a a realizar gestos caseiros criados por ela mesma.
 
Para essas crian√ßas, √© importante que a Libras seja valorizada e ensinada como primeira l√≠ngua na escola, mesmo que seja aprendida simultaneamente ao portugu√™s escrito. ‚ÄúSe esse processo n√£o for feito, a gente tem uma queda, um preju√≠zo. E √© muito importante ter esse incentivo para as pessoas surdas, esse aprendizado de uma primeira l√≠ngua, para que depois elas consigam escrever a l√≠ngua portuguesa e sinalizar‚ÄĚ, aponta Fernanda.
 
Ler com a vis√£o
 
Fluentes ou não em Libras, a alfabetização das crianças surdas, em geral, esbarra nos obstáculos do ensino-aprendizado da língua portuguesa que, tradicionalmente, tem os seus métodos e estratégias voltados para os estudantes ouvintes.
 
Como ilustra Luciana Freitas, ‚Äúpara que um aluno ouvinte escreva, por exemplo, ‚Äėbola‚Äô: se ele conhece os sons e as s√≠labas ‚Äėbo‚Äô e ‚Äėla‚Äô, ele junta e escreve. Agora, para o aluno surdo, qual √© a dificuldade? Ele n√£o tem esse som de ‚Äėbo‚Äô, de ‚Äėla‚Äô. Ele pode fazer uma leitura labial, mas se voc√™ me olhar sem o som, eu posso falar cola, bota‚ÄĚ. Os processos de ensino comuns s√£o baseados no campo auditivo, o que anula infinitas possibilidades para quem comunica, pensa e aprende pelo visual.
 
Para garantir o desenvolvimento escolar de estudantes surdos, √© necess√°rio que o professor tenha em mente a valoriza√ß√£o do espa√ßo visual. A import√Ęncia da aquisi√ß√£o da primeira l√≠ngua ser a l√≠ngua de sinais passa justamente por esta ser uma l√≠ngua visuoespacial e o campo de vis√£o ser a primeira forma de apreens√£o do mundo da pessoa surda, sendo n√£o s√≥ a via natural pela qual ela se comunica, mas tamb√©m pela qual ela aprende.
 
O professor pode lan√ßar m√£o de recursos visuoespaciais, como a cria√ß√£o de um material de apoio visual que cont√©m ilustra√ß√Ķes das palavras e conceitos a serem ensinados, e que tamb√©m pode ser usado como ferramenta de ensino para os alunos ouvintes. Outros elementos visuais que podem ser usados s√£o fotografias, filmagens, pinturas e objetos concretos. Mas, na especificidade dos alunos surdos, esses materiais precisam ser contextualizados. ‚ÄúTudo o que for contextualizado para o aluno surdo, primeiro, √© mais interessante tamb√©m para qualquer outra pessoa, e, principalmente, para aquele aluno‚ÄĚ, afirma a professora Luciana.¬†
 
Ainda no exemplo com a palavra bola, Luciana diz: ‚ÄúEu preciso ver essa palavra em v√°rios contextos para que eu me aproprie dessa palavra tamb√©m, porque n√£o posso s√≥ ensinar a palavra bola e o sinal de bola, mas o contexto em que est√° essa palavra bola. Pode ser bola de sorvete, bola de brincar, ‚Äėme d√° a bola‚Äô...‚ÄĚ Ou seja, mais do que ver o objeto ao qual se refere uma palavra e aprender seu sinal, √© importante que o aluno saiba o lugar daquele objeto, para que ele serve e como pode ser usado. E tamb√©m os usos da palavra, j√° que esses podem mudar de acordo com o contexto.
 
Todo apoio é garantido
 
Apesar de recentes, as pol√≠ticas p√ļblicas de acolhimento das crian√ßas surdas nas escolas ‚ÄĒ especialmente na perspectiva bil√≠ngue, ou seja, o ensino da l√≠ngua portuguesa e da Libras juntas ‚ÄĒ existem e s√£o asseguradas enquanto direitos. Mesmo que o professor n√£o tenha dom√≠nio da l√≠ngua de sinais e pouco conhe√ßa sobre a educa√ß√£o para alunos surdos, tanto ele quanto o aluno e toda turma recebem orienta√ß√Ķes.
 
Assim que o aluno surdo ingressa na escola, o serviço de apoio à inclusão da rede em questão é solicitado. Por meio desse serviço, a criança surda pode contar, em sala de aula, com um intérprete de Libras e, também, pode ter acesso a um instrutor para aprender a língua de sinais. As aulas com instrutor ocorrem no contraturno escolar da criança, dentro do Atendimento Escola Especializado (AEE). O serviço de AEE, que é disponibilizado para todos os alunos com deficiência, também atua junto ao professor, auxiliando-o na preparação das aulas e de materiais que atendam às especificidades do aluno surdo.
 
Muitas redes, sejam municipais ou estaduais, t√™m trabalhado para que a Libras esteja sempre presente no ambiente escolar. Na rede municipal de Belo Horizonte, a exemplo, o projeto Dissemina√ß√£o da Libras oferece capacita√ß√Ķes em l√≠ngua de sinais a pedido das escolas, sem a necessidade de a escola ter um aluno surdo ali matriculado. ‚ÄúSe o diretor vir que h√° o interesse de alguns professores, ele pode solicitar um tutor, um professor de libras. E esse professor vai ensinar libras nessa escola, nessa sala de aula.¬† Isso com o objetivo de que essa l√≠ngua seja para todos.‚ÄĚ, aponta Luciana Freitas.
 
A√ß√Ķes assim v√£o ao encontro, ainda que muito lentamente, da meta n¬ļ 4 do Plano Nacional de Educa√ß√£o (PNE) de 2014, que aprova a cria√ß√£o de classes ou escolas bil√≠ngues para surdos. Essa √©, inclusive, uma antiga defesa da comunidade surda que reivindica que as crian√ßas surdas tenham sua alfabetiza√ß√£o em salas ou escolas bil√≠ngues, uma vez que, como aponta Terezinha Rocha, ‚Äúas hip√≥teses nos processos de aprendizado da leitura e da escrita delas se diferenciam das dos ouvintes‚ÄĚ.¬†
 
A cria√ß√£o de salas de aula e escolas bil√≠ngues n√£o parte do desejo de afastar novamente as crian√ßas surdas da escola comum, como muitas vezes j√° ocorreu; mas, sim, de incluir a Libras nessas escolas de forma valorizada e n√£o como algo ‚Äúacess√≥rio‚ÄĚ. Especialmente na alfabetiza√ß√£o, quando a crian√ßa, al√©m de aprender a ler e escrever, estar√° tendo contato com uma, √†s vezes duas nova(s) l√≠ngua(s).